Flavia Martins Moraes.
“Através da tridimensionalidade da cerâmica, em especial utilizando a porcelana de dejeto industrial, moldo as nuances do meu universo interno.”
2017 foi o ano em que mudei de profissão. Após me formar em Artes, fiz um curso de especialização em Desenho Industrial e em seguida comecei a trabalhar com desenho de joias. Fiz isso por muitos anos porque foi um caminho ao qual eu fui levada, mas não um que eu escolhi. Depois de muito tempo tive a coragem ou falta de coragem imposta pelo limite e abandonei a joalheria.
Comecei a dar aula de línguas, minha segunda graduação e especialização, para sobreviver e voltei a fazer cerâmica, veículo do meu TCC.

Como cheguei ao barro
Durante alguns anos me adaptei, reentendi minha forma de viver, repensei, e aí sim com coragem, sobre fazer arte.
Esse caminho levou a 2023, em uma residência artística em Ílhavo, na fábrica de porcelanas Vista Alegre. Lá aprendi muito sobre técnica e materiais, mas aprendi mais ainda sobre mim mesma. Eu queria me expressar por meio da cerâmica, modelagem e da arte. Mesmo que isso não me levasse além da execução das minhas ideias.
Em Ílhavo minha vontade de falar sobre temas que vinham calados, por mim mesma, e oprimidos em algum lugar se misturaram aos azulejos que, no meu imaginário, eram objetos que protegem e embelezam áreas internas mas ali viviam fora, nas fachadas, plenos e altivos.
Nessa residência desenvolvi uma ideia para a indústria mas a peça que me marcou foi a intervenção artística pedida a todos que participam: transformar o cão (peça histórica) da Vista Alegre. Pensei em um modelo destes que mostram a anatomia de corpos, com aquilo que vemos externamente e com as camadas do que faz tudo funcionar internamente. Meu cão era cão por fora e flora por dentro, com galhos, flores e um girassol na cabeça.
Nessa mesma temporada fiz um workshop ligado à Bienal do Porto e à Bienal de Cerâmica de Aveiro, o Mud Prima Matters, workshop que explora o uso e reuso sustentáveis de materiais industrializáveis. Falamos sobre a coleta de dejetos da indústria e ateliês que trabalham com as várias massas cerâmicas e sobre como podemos reutilizar o produto desta coleta. Ali vi como a porcelana lavada das mãos e ferramentas dos artesãos que trabalham nas fábricas, criando peças finas e caras, viram lama misturada com outras substâncias e com o próprio DNA de quem manipulou esse processo.
Esse material me intrigou e chegando de volta a São Paulo fui a caça de dejetos em indústrias de porcelana nacionais. Encontrei, por uma coincidência nominal, a Bela Vista na cidade de Pedreira. Lá fui muito bem recebida e minha ideia foi acolhida. Saí com toneladas de dejetos.
Nessa colcha de retalhos foi se esquentando o projeto de uma série de cabeças, que saíam de uma caixa onde o mundo se limita a espelhos distorcidos para externar todos os seus galhos, frutas, flores e raízes.
Formação e participações
- Formação — Graduação em Artes e especialização em Desenho Industrial; graduação e especialização em Línguas.
- 2023 — Residência artística na Vista Alegre, em Ílhavo (Portugal).
- 2023 — Workshop Mud Prima Matters, ligado à Bienal do Porto e à Bienal de Cerâmica de Aveiro.